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Por: Juan Manuel Zara
Publicado em 1 de abril de 2025
Comentários: 5
Comunicação #2, visitas #1745Um passeio pelos quentes pântanos de Santa Fé, no pleno verão, procurando uma ave migratória que chega à Argentina vinda da América do Norte.
Os observadores de aves às vezes fazemos coisas que parecem inexplicáveis para quem não é observador. Por exemplo, ir até o norte de Santa Fé no início de março, quando ainda a temperatura à sombra não baixa dos 35°C, apenas para ver um único passáro. Tudo é umidade, tudo parece desagradável e pegajoso, e tudo é visto através de uma pátina ondulante de calor; e, no entanto, uma ave pode fazer com que voltemos para casa contando essa experiência como algo fantástico.
Essa paisagem em particular eu adoro. Me leva aos romances de Juan José Saer. Nas terras baixas das costas paranaenses de Santa Fé, prosperam banhados, ilhas e arrozais. E isso a torna o ponto preferido para a migração do Triste-pia.
Cada ano, centenas e milhares de aves chegam à Argentina em migrações que podem cobrir todo o continente. Entre elas — as que vêm da América do Norte fugindo do inverno — estão os Triste-pia (Dolichonyx oryzivorus), ou Bobolinks, nome simpático pelo qual são conhecidos em inglês. Durante os meses do nosso verão, visitam áreas alagadiças do país, e talvez um dos melhores momentos para procurá-los sejam as últimas semanas de fevereiro e as primeiras de março.

Não apenas porque os calores já são menos intensos do que em dezembro ou janeiro, mas porque esse passarinho faz longas paradas no meio da viagem e não chega à Argentina até a metade da primavera, como outros migrantes. Os registros dessa espécie são mais frequentes a partir de janeiro. Mas há também outra vantagem para procurá-lo nesta época: os machos, preparados para o retorno, já exibem sua plumagem nupcial característica, como pude confirmar com meus próprios olhos.
Em março de 2024, com dois amigos, fomos passar um fim de semana na localidade santafecina de San Javier para conhecer esses Triste-pia. Seguíamos um ponto preciso, não muito longe da cidade, onde ano após ano a espécie é registrada — figura no eBird como “Bañado Arundinicola”, talvez porque algum dia tenha sido vista lá a Freirinha (Arundinicola leucocephala)—. Os arredores da área talvez sejam a região mais próxima de Buenos Aires onde o Triste-pia é regularmente visto.
No todo da paisagem, abundam terrenos inundáveis e lagoas formadas ao lado das estradas. Sem contar as margens do Paraná (o melhor rio do mundo). Não faltam, portanto, espécies relacionadas à água como Gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), Socozinho (Butorides striata), Martinetes Pescadores (de três tamanhos; Megaceryle torquata, Chloroceryle americana e Chloroceryle amazona) ou a Lavadeira-de-cara-branca (Fluvicola albiventer), a rainha dos pântanos.

E ainda bem que apareceram todos esses bichos, porque os Triste-pia nos fizeram esperar.
No primeiro dia, o calor nos deixou meio sonolentos. Além disso, na ida, nos demos o luxo de parar na estrada ao lado de cada charquito de água que encontrávamos. Esses pontos, pequenos oásis entre cultivos e zonas de pastagem, transbordam de biodiversidade. Conseguimos ver uma família de pelo menos dez Cardeais (Paroaria coronata), a maioria juvenis, ainda com a crista alaranjada. Também houve dois ou três indivíduos de Lavadeira-de-cara-branca, um tirânido associado aos rios, semelhante à Freirinha e mais ou menos do mesmo tamanho. Ela aproveita os corpos d'água para se alimentar de insetos. Costuma andar entre ramos de árvores e arbustos que caem perto da água. Aparece, se esconde e depois sai novamente mais abaixo, para "pescar bichos".
Consegui vê-la caçar de outras duas maneiras. Uma das estratégias é "pescar ao Martim Pescador". Ou seja, sobrevoar a água, rasante, para levantar presas. Quando faz isso é muito fácil de ver, pois, com sua combinação de branco e preto, não é um bicho que passe despercebido. O outro método que vi ela usar para se alimentar é o das Gaúchas (Muscisaxicola sp.) ou o do Suiriri-cavaleiro (Machetornis rixosa) — outros dois tirânidos. Ela se posiciona sobre plantas flutuantes, como Alface-d’água ou Hydrocotile, e forrageia como se estivesse fazendo isso sobre o solo.
No segundo dia, começamos tarde, pois choveu a manhã toda. Não quisemos correr o risco de pegar os caminhos de barro e preferimos explorar os arredores de San Javier, em busca de um lugar acessível para ver aves em geral. Aproveitamos e começamos a busca pelas margens do Paraná. Claro que ali não iriam aparecer os Triste-pia, mas nos deliciamos observando uma grande família de Martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona).
Eram aproximadamente cinco indivíduos. Todos andando juntos. Achamos muito para um animal que, em todo caso, só é visto em casais. Antes, havíamos visto passar por cima de nós um Martim-pescador-grande (Megaceryle torquata). Esse seguiu em frente. Os Martim-pescador-verdes estavam por uma área no final de uma trilha, onde o rio se abria e se cruzava com outro braço, formando uma espécie de lagoa.
Entre todos os indivíduos, a maioria tinha o plumagem característica das fêmeas. As fêmeas e os machos se diferenciam porque os machos têm um colar laranja, enquanto as fêmeas têm um colar verde incompleto. Mas é muito possível que não fossem necessariamente fêmeas, mas juvenis de qualquer sexo. Pelo menos um estava pedindo comida para um macho adulto. O suposto pai o deixou com um peixe que era tão longo quanto o seu bico e se foi.
É incrível a versatilidade desses bichos na hora de caçar. Registramos pelo menos três métodos distintos. Somente o macho adulto caçava sobre a água. As fêmeas e os juvenis alternavam entre pescar de um poleiro e voos rasantes sobre a água. No primeiro caso, eles tinham menos sucesso do que no segundo. Quando finalmente pegavam um peixe, se ele lutava, eles o batiam contra os galhos.
Agora bem: embora eu nunca me canse de todos esses bichos nem dos pântanos, não havíamos feito mais de 600 km apenas por eles.
Somente no terceiro dia —nossa última oportunidade— conseguimos ver os Triste-pia.
Primeiro vimos um só, isolado. Um macho já colorido. Pousado em um fio de arame junto a um Polícia-inglesa-do-sul (Leistes supersiliaris). Ele ficou cantando um tempo e depois voou para um capinzal. Foi aí que vimos que havia cerca de trinta! Mais tarde, encontramos outros grupos separados, em manchas de capim alto, onde havia muitos mais —quase 100 indivíduos.

Embora costumem usar arrozais, nós os vimos em um ponto não cultivado. Nos dois dias anteriores, procuramos em cultivos e não tivemos sorte. Eles usavam capim do gênero Coleataenia. Pelo que entendi, é uma gramínea típica dos pastos nos pântanos do Paraná. Os Triste-pia não se alimentavam das suas espigas, mas usavam essa planta apenas como poleiro e refúgio. Em vez disso, preferiam se alimentar do solo.
São notavelmente diferentes dos Garibaldi (Chrysomus ruficapillus) — dos quais haveria no mesmo lugar cerca de mil — e é impossível confundi-los. Embora os machos já estejam meio escuros por essa época, em voo, são visíveis suas manchas brancas. Já tinham até a nuca tingida, um sinal de que estavam prontos para voltar ao norte. Além disso, são muito menores que os outros. As fêmeas, por sua vez, são bem amarelas.

Quanto ao comportamento, é típico dos varilleros, embora se movam particularmente baixo. Quase não sobem acima do limite da grama, a não ser que precisem se deslocar para longe, e não se expõem muito. Procuram comida no chão enquanto um grupo fica acima, cantando e vigiando. Os que estão embaixo são praticamente invisíveis, exceto pelos pequenos saltos que dão para se mover.
Depois, sobem, se empoleiram, sacodem a cauda como para se equilibrar e se arrumam. De repente, podem ser dezenas os que levantam voo do chão e se perdem entre o capinzal. Os Garibaldi, por outro lado, quando descansam, fazem isso todos expostos no alto dos capins e junços.
Os Triste-pia também têm um movimento menos frenético que os outros. Quando precisam levantar voo, para ir de um mato de capim a outro, se dispersam um pouco, mas não fazem voltas. Raramente chegam muito alto. Imediatamente descem e a nuvem de Triste-pia desaparece em um novo capinzal.
Também não fazem muito barulho diante das ameaças. Quando há algum perigo, os que estão forrageando no chão dão um salto e se refugiam com o restante do grupo. Pelo menos foi o que fizeram quando um Carcará (Caracara plancus) sobrevoou bem acima deles. No ar, os ombros brancos dos machos poderiam se confundir com os ombros amarelos do Sargento (Agelasticus thilius), mas é importante notar que os Triste-pia também têm a cauda branca.
Em um momento, os Garibaldi se dispersaram longe do ponto onde estávamos e foi possível ouvir o barulho que dá nome a essas aves migratórias. Embora não sejam especialmente “tagarelas” em comparação com os Garibaldi, que cantam mais alto. O canto desses bichos é mais agudo, sustentado e modesto. É verdade que não parecem ficar quietos nunca. Mas seu canto não tem nenhuma particularidade.
A plumagem recessiva, idêntica entre machos e fêmeas, é mais simples e, vista de longe, pode ser confundida com passarinhos semeadores. Tipios, Canário-da-terra-verdadeiro, filhotes de Tico-tico ou até Pardais — embora não devessem ser muito vistos na região — podem causar confusão. Os Triste-pia têm bico e patas rosas, algumas estrias no peito, costas cinzas e uma sobrancelha amarela que contrasta com a frente escura.
Para procurá-los, existem ao redor dos “Bañados Arundinicola” dois caminhos que saem da Ruta Provincial 1: um mais ao norte, que atravessa arrozais, e um mais ao sul — cruzando uma cancela que pode estar trancada com cadeado — que passa por áreas de pastagem. Outra opção que parece confiável aparece no eBird como “Bañados de Ruta 73”. Em geral, a partir desse ponto para o norte, toda a costa oeste do Paraná tem registros de Triste-pia.
Enquanto íamos embora, satisfeitos com nossa expedição, apareceu para nos despedir outro animal que nos lembrou que nem tudo são aves. Ao lado do caminho, cruzamos com uma enorme Surucucu do pantanal (Hydrodynastes gigas). Segundo seu nome científico, é “a maior das donas da água” e sua atitude a faz merecedora do título. Pudemos confirmar algo que tínhamos ouvido: que é uma cobra agressiva que não tem problema em enfrentar. Neste caso, ela se enfrentou nada mais, nada menos que ao carro! Levantou a cabeça e apertou o corpo para parecer maior. Quando viu que não éramos uma ameaça, se escondeu entre as plantas e voltou para a água.

Voltando aos Triste-pia, recomendo aproveitar as últimas semanas de fevereiro ou as primeiras de março para ir procurá-los. Ver-los e ter seus bandos voando por cima é um espetáculo. Embora seja catalogado globalmente como “preocupação menor” (e ameaçado a nível nacional), não deixa de ser um bicho que está em perigo devido ao uso de agrotóxicos, à perda de habitat e à caça. Além disso, como todas as aves que percorrem anualmente todo o continente, é uma espécie de maravilha natural.
Você pode encontrar mais crônicas do autor em: https://avesengeneral.substack.com/
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Muy linda crónica Juan. Sin dudas un bichazo
Espectacular forma de plasmar la experiencia!!! fui hace muchos años y me dieron ganas de volver!!!
Muy linda nota que te hace imaginar todo lo que vivenciaste!! Hace tiempo que decimos con Jorge de ir a buscarlos, es una especie que yo todavía no conozco... El año que viene será!
Hermoso relato..muchas gracias por compartir tu experiencia...
¡Bellísimo y experto relato!
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