Scinax fuscovarius (A. Lutz, 1925), também conhecida como perereca-de-banheiro, ou raspa-cuia, é um anfíbio anuro da família Hylidae, pertencente ao gênero Scinax com ampla distribuição na América do Sul, incluindo o Brasil.
Etimologia: A palavra Scinax vem do grego skinakos e significa ágil, ou rápido, representando um gênero de anfíbios com uma notável habilidade de salto. Já a palavra fuscovarius vem do latim e significa “marrom” referente a sua coloração.
Seu nome popular vem da sua adaptação a ambientes antropizados, sendo comumente encontrada em banheiros, ralos e instalações hidráulicas, o que lhe dá o nome popular de perereca-do-banheiro. Além disso, devido ao seu canto, que lembra um ruído de raspagem, é, também, conhecida como perereca raspa-cuia.
Taxonomia e sistemática: S. fuscovarius, pertencente à família Hylidae e ao grupo Scinax ruber, foi descrita com originalidade por Adolfo Lutz, em 1925, com o nome de Hyla fuscovaria. Em termos de taxonomia, durante algum tempo, foi reavaliada devido a similaridade com outras espécies, uma vez que ocorreram confusões pela semelhança dentro do gênero Scinax. Estudos filogenéticos apontam proximidade com Scinax similis, o que sugere um ancestral em comum adaptado a outros ecossistemas.
Da perspectiva taxonômica, o gênero pertence a tribo Dendropsophini, sub família Hylinae, família Hylidae e, de acordo com as revisões de filogenia, os membros estão distribuídos atualmente nos grandes dois clados Scinax catharinae e Scinax ruber.
Distribuição geográfica e habitat: A espécie S. fuscovarius possui ampla distribuição geográfica, que ocorre desde estados brasileiros, como o Mato Grosso, Goiás e o Rio Grande do Sul, até o Norte do Uruguai e o Nordeste da Argentina, Paraguai e Bolívia, em altitudes entre 150 m até 1800 m de altitude. No Brasil está presente nos biomas Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal, com grande ocorrência em ambientes abertos e com maior interferência antrópica, debaixo de troncos, pedras, galerias de água, poças temporárias, permanentes e brejos, sendo raramente achados em ambientes florestados.
Caracterização da espécie: S. fuscovarius é uma espécie arborícola de médio porte com comprimento rostro-cloacal de até 48 mm. Possui o dorso castanho escuro, castanho-amarelado, verde-oliva, ou amarelo-pálido, com manchas irregulares marrons escuras a pretas. Além disso, tem partes escondidas dos membros e flancos amarelas entremeadas com preto e seu ventre é esbranquiçado, com manchas escuras. Também possui um tímpano maior que o maior disco adesivo da mão.
Reprodução e ciclo de vida: A espécie possui atividade noturna e tem sua reprodução concentrada em estações quentes e chuvosas, como a primavera e o verão entre os meses de setembro a março. Prefere áreas abertas e ambientes lênticos para sua reprodução e desova, bem como brejos, poças, ou riachos temporários de fundo arenoso, ou lodoso, cercados por vegetação arbustiva.Durante o amplexo, ou abraço nupcial, as fêmeas realizam a deposição de 1.500 a 2.000 ovos no fundo de corpos d’água espalhada entre detritos vegetais. Os girinos são cinza-claros e translúcidos e diurnos e nectônicos, isto é, ficam em trechos com profundidades entre 10 e 40 cm acima do fundo, ou próximos à superfície.
Vocalização: Os machos vocalizam no chão, ou na vegetação marginal próximos às áreas alagadas, formando coros para atrair as fêmeas para o campo, ou lagoa. Assim, é possível escutar sua vocalização, canto com a repetição da sílaba “cró” em intervalos regulares, tanto no fim da tarde, quanto à noite.
Alimentação: A perereca-de-banheiro é considerada uma espécie generalista no quesito alimentação, tendo uma dieta composta principalmente por artrópodes como aracnídeos, blatídeos, besouros e hemípteros.
Comportamento: Durante o dia, em busca de locais frios e úmidos, a espécie se abriga em tocas, frestas de árvores no chão, bromélias, ou em construções humanas. Fora do período de reprodução, pode ser comumente observada no interior de residências e em outros ambientes antrópicos.
Por preferirem áreas abertas, os fragmentos florestais, diferente das estradas e ambientes antropizados, funcionam como corredores para seu deslocamento entre os habitats de reprodução e outras regiões, realizam outras atividades comportamentais, bem como sua alimentação, hibernação e estivação.
Status de conservação: A espécie possui um estado de conservação estável sendo considerada pouco preocupante (LC) segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais da IUCN de 2023 e para a Lista Vermelha do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção de 2018 do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
Mitos populares: O desconhecimento das características das espécies leva uma generalização imprópria sobre a periculosidade dos anfíbios, fazendo com que a população desenvolva estereótipos errôneos sobre o grupo. Os anuros, como a perereca-de-banheiro, são considerados perigosos e “nojentos” pela maioria da população e acredita-se que o animal pode causar cegueira. Esse medo muitas vezes é atribuído a sua aparência, junto à perpetuação de crenças populares.
Arte: O título da música “Rapa Cuia”, produzida por Bezerra da Silva, refere-se à vocalização desta espécie. O som produzido pelos anuros sugere uma interação animada e lúdica entre os elementos da natureza e a vida simples do pescador.