Physalis peruviana, comummente conhecida como
fisális (nome comum que partilha com as demais espécies do género
Physalis) ou
tomate-capucho (não confundir com a espécie Physalis akekenji que consigo também partilha este nome comum), é uma espécie de planta da família das
solanáceas, nativa do Chile e do Peru.
A história do cultivo da
P. peruviana na América do Sul remonta ao Império Inca. É cultivada na Inglaterra desde o final do século XVIII, na África do Sul, no Cabo da Boa Esperança, nos Açores e na Madeira, pelo menos desde o início do século XIX. Amplamente introduzida no século XX, a
P. peruviana agora é cultivada ou cresce livremente em todo o mundo em regiões temperadas e tropicais.
Nomes comuns: Além do nome comum, fisális (grafia alternativa
fisálide), também é conhecido como:
alquequenge-amarelo (por alusão à espécie
Physalis akekenji, comummente conhecida como «alquequenge») e
tomatinho-de-capucho (não confundir com a espécie
Physalis akekenji, também conhecida com esse nome comum) .
Regionalmente, nos Açores, é conhecida como
rebuçado (por alusão ao cálice que a envolve e que lembra o invólucro de um rebuçado) e
capucho (não confundir com a espécie
Physalis akekenji, que também pode ser conhecida nesse território por esse nome comum), ao passo que na Madeira é conhecida regionalmente como
tomate-inglês..
Etimologia: Do que toca ao nome científico:
- o nome genérico, Physalis, provém do grego antigo φυσαλλίς que significa «bexiga» ou «fole».
- o epíteto específico, peruviana, alude ao Peru, território de onde esta espécie é nativa.
Taxonomia: Physalis peruviana recebeu uma descrição botânica da espécie por Carl Linnaeus em 1763.
P. peruviana está intimamente relacionada com o tomatillo. Como membro da família de plantas
solanáceas, também é parente distante de um grande número de plantas comestíveis, incluindo tomates, beringelas e batatas.
P. peruviana é anual em locais temperados, mas perene nos trópicos. Nos ambientes em que é perene, desenvolve-se num arbusto difusamente ramificado atingindo 1-1,6 metros de altura, com ramos espalhados e folhas aveludadas em forma de coração. As flores hermafroditas possuem forma de sino e caídas, tendo transversalmente, bem como são amarelo com manchas castanhas-arroxeadas internamente. Depois da queda da flor, o cálice expande-se, formando uma casca bege - o chamado «capucho» - que envolve totalmente o fruto.
A fruta é uma baga redonda e lisa, com um formato semelhante a um tomate amarelo em miniatura. É rico em vitaminas A, B, C (60 mg/100 g), com elevados teores de fósforo e ferro. É uma baga com um diâmetro de 1,5 a 3,5 cm, com várias sementes achatadas, assemelhando-se a um tomate em miniatura. O fruto está maduro quando o cálice - comummente conhecido como «capucho» - está castanho e o fruto amarelado ou alaranjado. Tem um sabor peculiar, levemente azedo, que corresponde a uma mistura dos sabores de uva, morango, kiwi e groselha. Por seu turno, o fruto tem o aspecto de pequeno tomate, quando despido do seu invólucro acastanhado.
Nutrição: Os tomates-capucho crus possuem 85% de água, 11% de carboidratos, 2% de proteína e 1% de gordura (tabela). Numa quantidade referencial de 100 g, os tomates-capucho fornecem 53 calorias e níveis moderados (10-19% do valor diário) de tiamina, niacina e vitamina C.
Foram feitas várias análises aos óleos de diferentes componentes da baga, principalmente das sementes, tendo-se descoberto que o ácido linoleico e o ácido oleico eram os principais ácidos gordos presentes, enquanto o beta-sitosterol e o campesterol eram os principais fitoesteróis, enquanto o óleo continha vitamina K e beta-caroteno.
Distribuição e habitat: O centro de diversidade genética da
Physalis peruviana está localizado nas montanhas dos Andes do Equador, Chile, Colômbia e Peru. Cresce em florestas, bordas de florestas e áreas ribeirinhas. Pode-se desenvolver em altas altitudes de 500-3.000 metros em sua região nativa, mas também pode ser encontrado ao nível do mar na Oceania e nas ilhas do Pacífico, onde ocorre amplamente em condições subtropicais e quentes e temperadas.
Localiza-se na faixa de latitude a cerca de 45°S a 60°N, ao passo que na faixa de altitude, encontra-se geralmente até 3.000 metros nível do mar. A planta tornou-se invasiva em alguns habitats naturais, formando matagais, particularmente no Havaí e em outras ilhas do Pacífico. Acredita-se que existam dezenas de ecótipos em todo o mundo que se diferenciam pelo tamanho da planta, forma do cálice e tamanho, cor e sabor da fruta. Pensa-se que as formas selvagens sejam diplóides com
2n = 24 cromossomas, enquanto as formas cultivadas incluem variedades com ploidia aumentada e 32 ou 48 cromossomas.
Ecologia: Sendo certo que se trata de uma planta natural de bosques neotropicais húmidos, também se comporta como espécie ruderal, podendo medrar subespontaneamente em courelas agrícolas inclusive. Hoje em dia, considera-se naturalizada nos dois hemisférios.
Portugal: Com efeito, a planta encontra-se naturalizada em Portugal, desde do séc. XIX, mais propriamente no arquipélago dos Açores,tendo sido relatada a sua presença subespontânea no arquipélago, já em 1867, pelo botânico Edmond Goose, e no arquipélago da Madeira, tendo sido relatada a sua presença subspontânea, já em 1826.
Cultivo: Foi amplamente introduzida no cultivo em áreas tropicais, subtropicais e temperadas, como Austrália, China, Índia, Malásia e Filipinas.
P. peruviana prospera a uma temperatura média anual de 13 a 18 °C, embora tolere valores entre os 10 e os 32 °C. Cresce bem em climas mediterrâneos e é resistente à zona de robustez 8 do USDA, o que significa que pode ser danificada pela geada. Prefere uma precipitação média anual entre os 1.500 e 2.300 mm, tolerando entre 800 e 4 300 mm, se o solo for bem drenado. Prefere localizações abrigadas, com alguma exposição ao sol pleno ou em sombra parcial, em solo bem drenado, podendo em todo o caso crescer vigorosamente em solo arenoso.
Prefere solos francos ricos em húmus, mas tolera solos pobres. Não se adapta bem a solos argilosos. Por seu turno, os solos excessivamente férteis favorecem o desenvolvimento vegetativo em detrimento da frutificação. Estas plantas toleram um pH entre 4,5 e 8,2.Além do mais, estas plantas toleram geadas ligeiras.
A planta cresce facilmente a partir de sementes, que são abundantes (com cem a trezentas em cada fruto), mas com baixa germinação, exigindo milhares de sementes para semear um hectare. As plantas cultivadas a partir de mudas de caule com um ano florescem cedo e produzem bem, mas são menos vigorosas do que as cultivadas a partir das sementes.
A primeira colheita de frutos pode ser obtida logo ao fim de cerca de 3 meses após a sementeira, podendo a colheita continuar durante pelo menos 3 anos. Em áreas resguardadas da geada, a planta pode inclusive florir e frutificar durante todo o ano.
Portugal: Em Portugal, particularmente nos Açores, há plantações de capucho ao ar livre. A planta, neste território, é anual, sendo certo que, se for podada, pode produzir durante 2 anos e indeterminada quando ao período de antese (i.e. pode florescer em qualquer estação). Desde a sementeira até à primeira produção decorrem mais ou menos sete meses. A sementeira deve ser feita entre Março e Abril, sendo que a plantação ocorre entre Maio e Junho, ao passo que a colheita tanto pode ocorrer no Verão como no Outono.
Com efeito, há várias plantações de maior ou menor escala, na ilha de S. Miguel, as quais fornecem à indústria de conserva, designadamente compotas da Sociedade Corretora Michaelense, em funcionamente desde o princípio do séc. XX. Existem também plantações caseiras em pequena escala em quase todas as ilhas açorianas, especialmente atendendo à sua natureza espontânea, pelo que surgem dispersas por courelas agrícolas, se bem que a maioria produção, ainda assim, reputa-se à ilha de S. Miguel.
Pragas e doenças: Na África do Sul, as lagartas atacam a
Physalis peruviana em canteiros. As lebres danificam as plantas jovens e os pássaros comem os frutos. Os ácaros, as moscas-brancas, bem como os besouros-saladores também podem ser problemáticos. A isto acresce, ainda, que o oídio, a cochonilha-da-laranjeira, a podridão radicular e diversos vírus podem afetar estas plantas. Na Nova Zelândia, estas plantas podem ser infectadas por
Candidatus Liberibacter solanacearum.
Culinária e alimentação: O fruto desta espécie é amiúde consumido cru, se bem que também pode ser cozinhado, usando-se na confecção de tartes, bolos, geleias, compotas, doces, entre outros. Apresenta um sabor agridoce, mas agradável. Na América Latina, é frequentemente consumido como
batido ou
smoothie, e por causa de sua casca vistosa, é usada em restaurantes como guarnição decorativa para sobremesas.
O fruto seco pode ser utilizado como substituto das passas, embora seja menos doce. Com efeito, o fruto seco também pode ser usado como um possível substituto da levedura.
O cálice - comummente conhecido como «capucho» - que o protege de pragas e das intempéries, é tóxico e não deve ser consumido. O fruto é rico em vitamina A (3 000 UI de caroteno por 100 g), vitamina C e algumas vitaminas do complexo B (tiamina, niacina e B12). Os teores de proteína e fósforo são excecionalmente elevados.
Quando colhido cuidadosamente com o cálice intacto, o fruto pode ser armazenado 3 meses ou mais.
Usos etnobotânicos e medicinais: Históricamente, o sumo das folhas foi usado na confecção de mezinhas para o tratamento de parasitas intestinais e perturbações do trato digestivo. Ainda nesta toada, sobressai que a planta em si possui reconhecidas propriedades diuréticas.
Historicamente, chegou-se a fazer uma decocção dos cálices a fim de tratar as diabetes.
Potencial de toxicidade: As flores, folhas e caules verdes da planta contêm solanina e alcaloides solanidínicos, pelo que podem causar envenenamento, caso ingeridos por humanos, gado ou cavalos.