Arapaçu-escamoso (nome científico:
Lepidocolaptes squamatus) é uma espécie de ave passeriforme da família dos furnariídeos (
Furnariidae) e subfamília dos dendrocolaptíneos (
Dendrocolaptinae). É endémico do Brasil. É considerado espécie-irmã do arapaçu-escamoso-do-sul e já foi tratado como conspecífico a ele. Atualmente reconhecem-se duas subespécies:
Lepidocolaptes squamatus squamatus, distribuída no leste e sudeste do Brasil, e
L. s. wagleri, presente em áreas mais secas do Nordeste. Alguns autores defendem que ambas representem espécies distintas, hipótese sustentada por diferenças morfológicas, genéticas e biogeográficas. A espécie mede cerca de 19 centímetros de comprimento, possui corpo esbelto, bico fino e curvado para baixo e plumagem marcada por estrias claras sobre fundo marrom-avermelhado, formando aspecto escamado característico.
O arapaçu-escamado habita principalmente florestas úmidas e semiumidas da Mata Atlântica, além de áreas de Cerrado e Caatinga, ocorrendo desde regiões baixas até altitudes superiores a metros. A subespécie
wagleri ocupa ambientes mais secos, como florestas semidecíduas e caatingas arborizadas. Alimenta-se provavelmente de artrópodes, forrageando em troncos e galhos do estrato médio ao dossel, frequentemente associado a bandos mistos de aves insetívoras. Seu canto consiste em séries de assobios agudos e descendentes, e a reprodução foi registrada principalmente na primavera. A União Internacional para a Conservação da Natureza classifica a espécie como pouco preocupante (LC), embora as populações apresentem tendência de declínio em razão da perda e fragmentação florestal. A forma
wagleri, mais restrita e fragmentada, sofre especialmente com incêndios, produção de carvão vegetal e expansão agrícola.
Etimologia: O nome genérico
Lepidocolaptes deriva do grego
lepís (), "escama", e
koláptēs (), "pica-pau" ou "batedor". O epíteto específico
squamatus, por sua vez, deriva do latim
squamatus, "escamado". O nome popular
arapaçu deriva do tupi
arapa´su em sentido próprio. Seu primeiro registro ocorreu em 1949.
Taxonomia e sistemática: O arapaçu-escamado é considerado espécie-irmã do arapaçu-escamoso-do-sul (
Lepidocolaptes falcinellus), tendo sido anteriormente tratado como conspecífico a ele. A distância genética relativamente pequena entre a raça nominal e
wagleri, aliada ao registro de pelo menos um espécime com combinação intermediária de caracteres, sugere que ambas pertençam a uma única espécie biológica. Atualmente são reconhecidas duas subespécies, a subespécie nominal,
L. s. squamatus (Lichtenstein, MHC, 1822), e a subespécie
L. s. wagleri (Spix, 1824). O ornitólogo Ber van Perlo as trata como espécies plenas, o que pode ser o caso com base em diferenças morfológicas e genéticas observadas. O Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos reconheceu essas diferenças e assumiu que são espécies diversas, posição adotada no segundo ciclo de avaliação (2016-2020).
O arapaçu-escamado mede cerca de 19 centímetros de comprimento e pesa aproximadamente 27 gramas na subespécie
wagleri. É um arapaçu esbelto, de porte médio, com bico fino e curvado para baixo. A raça nominal apresenta laterais da cabeça escuras com estrias esbranquiçadas, além de um supercílio esbranquiçado geralmente discreto e interrompido. A testa e a coroa são marrom-escuras, com penas marcadas por manchas no eixo, formando um aspecto levemente mosqueado que não se estende ao dorso. O dorso é marrom-avermelhado brilhante, enquanto uropígio, asas e cauda são avermelhados. A garganta esbranquiçada contrasta fortemente com o peito e o ventre marrom-escuros, marcados por estrias esbranquiçadas delimitadas por bordas pretas. A íris varia de marrom-avermelhada a marrom; o bico é cor de chifre ou rosado, geralmente com a maxila superior mais escura; pernas e pés variam de cinza-oliva a pretos. Pode ser confundido com o arapaçu-rajado (
Xiphorhynchus fuscus), espécie menor que apresenta face e partes inferiores mais claras, estrias ventrais mais difusas, sem bordas pretas bem definidas, e dorso mais intensamente estriado. Também se assemelha ao arapaçu-escamoso-do-sul, embora as duas espécies não ocorram em simpatria; distingue-se desta pelo supercílio mais fraco, estrias menos extensas e menos evidentes na coroa, partes inferiores mais claras e coloração geral da coroa e dorso mais pálida. O macho possui asas e cauda ligeiramente mais longas do que as da fêmea. O juvenil ainda não foi descrito. A subespécie
wagleri é ligeiramente menor do que a forma nominal e apresenta partes superiores em tom canela-avermelhado mais claro, com pouco contraste entre a coroa e o dorso. As manchas da coroa reduzem-se a estrias axiais tênues, enquanto as partes inferiores são mais acastanhadas e possuem estrias com bordas escuras menos evidentes.
Distribuição e habitat: L. s. squamatus, distribui-se pelo leste e sudeste do Brasil, ao sul e leste do rio São Francisco, desde o centro da Bahia e Minas Gerais até a margem norte do rio Paraíba do Sul, no norte de São Paulo. Em sua área de ocorrência, distribuiu-se pelos biomas do Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga, nas bacias hidrográficas dos dos litorais da Bahia, Espirito Santo e Rio de Janeiro e dos rios Contas, Doce, Grande, Itapecuru-Paraguaçu, Jequitinhonha, Paranaíba, Paraíba do Sul e Alto e Médio São Francisco. Habita principalmente mata úmida e semiumida, sendo mais comum em florestas perenes montanas e florestas tropicais de baixada da encosta atlântica, embora também ocorra em florestas de galeria no limite ocidental de sua distribuição. Já
L. s. wagleri ocorre no nordeste do Brasil, a oeste do rio São Francisco, incluindo o sul do Piauí, oeste da Bahia e norte de Minas Gerais. Essa forma ocupa ambientes mais secos, geralmente restritos a florestas semidecíduas e decíduas, caatinga arborizada e florestas de galeria, onde grande parte da vegetação perde as folhas durante a estação seca. A espécie frequenta o interior de florestas maduras, vegetação secundária mais antiga e bordas florestais. Ocorre desde áreas baixas até cerca de metros de altitude, ocasionalmente acima de metros, sendo aparentemente residente ao longo de toda a distribuição, embora menos conspícua durante o período reprodutivo.
Ecologia: O arapaçu-escamoso alimenta-se presumivelmente de artrópodes, inferência baseada no conteúdo estomacal de poucos exemplares examinados. Costuma ser observado solitária ou em pares, frequentemente integrada a bandos mistos de aves insetívoras, dos quais tende a se afastar durante a reprodução. Forrageia principalmente ao escalar troncos e percorrer galhos finos, do estrato médio ao dossel, raramente próximo ao solo. O canto da forma nominal consiste em um assobio arrastado descrito como
peédeedir, ou em uma ou duas notas curtas seguidas de uma série descendente de assobios agudos, emitidos em aproximadamente dois segundos. A vocalização de contato é uma nota longa e aguda, frequentemente repetida. Os sons emitidos por
wagleri parecem semelhantes aos da forma nominal. Indivíduos em condição reprodutiva foram registrados em outubro no Rio de Janeiro, e ninhos já foram observados tanto em edificações quanto em ambientes naturais. Seu período gestacional é de 4,1 anos.
Conservação: A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) avaliou o arapaçu-escamoso como pouco preocupante (LC), pois ocorre numa distribuição extremamente grande e não se aproxima dos limiares para Vulnerável sob o critério de tamanho de distribuição (segundo a IUCN, extensão de ocorrência < 20 mil quilômetros quadrados combinada com um tamanho de distribuição decrescente ou flutuante, extensão/qualidade do habitat ou tamanho populacional e um pequeno número de locais ou fragmentação severa). Sabe-se que suas populações estão em tendência decrescente, mas o declínio não é suficientemente rápido para se aproximar dos limiares para vulnerável (> 30% de declínio ao longo de dez anos ou três gerações) e sua população é muito grande, o que igualmente descaracteriza a classificação como vulnerável (< 10 mil indivíduos maduros com um declínio contínuo estimado em > 10% em dez anos ou três gerações, ou com uma estrutura populacional especificada). O tamanho da população global do arapaçu-escamoso não foi quantificada, mas a espécie é descrita como "razoavelmente comum". Considera-se que essa espécie apresenta dependência intermediária de habitats florestais, e estima-se que a cobertura arbórea tenha diminuído 8,9% dentro de sua área de distribuição mapeada nos últimos dez anos. Assim, como medida de precaução, suspeita-se provisoriamente que essa perda de cobertura possa ter provocado um declínio entre 1% e 19% no tamanho populacional da espécie durante o mesmo período. A subespécie
wagleri apresenta distribuição mais fragmentada e sofre especialmente com incêndios, produção de carvão vegetal e expansão agrícola, ameaças semelhantes às enfrentadas pelo arapaçu-escamoso-do-sul. Em 2014, o arapaçu escamoso foi avaliado como pouco preocupante (LC) no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Estado de São Paulo; em 2017, sob o nome vernáculo de arapaçu-de-wagler (a lista reconheceu a subespécie
L. s. wagleri como
Lepidocolaptes wagleri), como em perigo (EN) na Lista Oficial das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção do Estado da Bahia; e em 2018 como pouco preocupante (LC) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Áreas de conservação: O arapaçu-escamado ocorre em diversas áreas de conservação e terras indígenas:
Área de Proteção Ambiental (APA)
- Petrópolis
- Serra da Mantiqueira
- Campos do Jordão
- Sapucaí Mirim
- Silveiras
- Rio Guandu
- Cachoeira das Andorinhas
- Bacia do Rio Macacu
- Bacia Hidrográfica do Rio Machado
- Fernão Dias
- Marimbus-Iraquara
- Sul-RMBH
- Itacuru
Floresta Nacional (FLONA)
Parque Nacional (PARNA)
- Serra das Lontras
- Chapada Diamantina
- Serra da Canastra
- Itatiaia
Reserva Biológica (REBIO)
Estação Ecológica (ESEC)
Parque Estadual (PE)
Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)
- Fazenda Barra do Pirapetinga
- Adília Paraguassu Batista
- Brejo Novo
- CEC/Tinguá
- Cachoeira Boa Vista
- Cachoeira do Cerradão
- Fattoria Grigia
- Fazenda Alto da Boa Vista
- Fazenda Barra do Sana
- Fazenda Cachoeira
- Fazenda Limeira
- Fazenda Macedônia
- Fazenda Roça Grande
- Fazenda San Michele
- Fazenda Suspiro
- Fazenda São Geraldo
- Fazenda da Serra
- Gleba O Saquinho de Itapirapuá
- Itajurú ou Sobrado
- Jornalista Antenor Novaes
- Morro do Curussu Mirim
- Nave da Esperança
- Panelão dos Muriques
- Reserva do Caraguatá III
- Sítio Grimpas
- Sítio São Domingos/Agartha
- Usina Maurício
- dos Feixos
- Área de Proteção do Reservatório de Juramento
Terra Indígena (TI)
Ver também: - Lista de aves ameaçadas do Brasil
- Lista de aves do Brasil