O
picanço-americano (
Lanius ludovicianus) é uma ave passeriforme da família Laniidae. Trata-se do único representante dos picanços que é endêmico da América do Norte; já o picanço-boreal (
Lanius borealis), espécie relacionada, vive ao norte da área de distribuição do picanço-americano e também ocorre na Sibéria. Em inglês, recebe o apelido de
butcherbird (ave-açougueira) por seu comportamento carnívoro: alimenta-se de presas como insetos, anfíbios, lagartos, pequenos mamíferos e aves de pequeno porte, sendo que algumas dessas presas acabam expostas ou guardadas em um local específico, como em galhos de árvores. Por possuir porte reduzido e garras pouco robustas, essa ave predadora recorre ao hábito de empalar suas presas em espinhos ou em arame farpado para facilitar a alimentação. A população de picanços-americanos vem sofrendo um declínio acentuado nos últimos anos, sobretudo nas regiões do Centro-Oeste, Nova Inglaterra e Médio-Atlântico.
Taxonomia: Em 1760, o zoólogo francês Mathurin Jacques Brisson apresentou uma descrição do picanço-americano em sua obra
Ornithologie, baseada em um espécime proveniente da Louisiana, nos Estados Unidos. Para denominá-lo, utilizou o nome francês
La pie-griesche de la Louisiane e o nome latino
Lanius ludovicianus. Embora Brisson tenha criado nomes em latim, esses termos geralmente não seguem o sistema binomial e, por isso, não são reconhecidos pela Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica. Quando o naturalista sueco Carlos Lineu revisou seu
Systema Naturae para a décima segunda edição, em 1766, ele acrescentou 240 espécies previamente descritas por Brisson, entre elas o picanço-americano. Lineu registrou uma breve descrição, adotou o nome binomial
Lanius ludovicianus — o mesmo nome latino empregado por Brisson — e citou o trabalho do zoólogo francês. O nome específico
ludovic corresponde ao latim tardio para "Luís", enquanto o sufixo "-ianus" indica algo pertencente ou relativo a alguém. Assim, o significado aproximado de seu nome científico é "açougueiro de Luís".
Atualmente, são reconhecidas sete subespécies:
- L. l. excubitorides Swainson, 1832 – Canadá central e as regiões central e ocidental dos Estados Unidos
- L. l. migrans Palmer, W, 1898 – leste da América do Norte
- L. l. ludovicianus Linnaeus, 1766 – costa sudeste dos Estados Unidos
- L. l. anthonyi Mearns, 1898 – Ilhas do Canal (próximas ao sul da Califórnia, sudoeste dos EUA)
- L. l. mearnsi Ridgway, 1903 – Ilha de San Clemente (próxima ao sul da Califórnia, sudoeste dos EUA)
- L. l. grinnelli Oberholser, 1919 – extremo sul da Califórnia e norte da Baja California (noroeste do México)
- L. l. mexicanus Brehm, C. L., 1854 – oeste e centro do México, além do sul da Baja California (noroeste do México)
Em 1931, Miller propôs que a relação entre o comprimento da corda da asa e o comprimento da cauda constituía um indicador relevante para diferenciar subespécies.
Lanius ludovicianus migrans, que ocorre no leste da América do Norte, pode ser distinguido da subespécie ocidental
L. l. excubitorides pelo comprimento das asas, pela extensão da cauda e pela coloração. Além disso,
L. l. migrans apresenta a testa mais clara do que o topo da cabeça. Segundo o estudo de Mundy
et al., realizado em 1997, há uma diferença genética significativa entre a subespécie insular
L. l. mearnsi e a subespécie continental
L. l. gambeli, resultado de uma barreira ao fluxo gênico que separa as duas formas.
Morfologia: O picanço-americano é um passeriforme de porte médio. O seu nome em inglês,
loggerhead shrike (picanço-cabeçudo), faz referência ao tamanho relativamente grande da cabeça em comparação com o restante do corpo. O comprimento das asas e da cauda mede aproximadamente 9,70 cm e 9,83 cm, respectivamente. Seu peso médio é de 50 g, variando entre 45 e 60 g em indivíduos adultos e saudáveis.
Faixas de medição
- Comprimento: 20 a 23 cm
- Peso: 34 a 51 g
- Envergadura: 27,9 a 32,0 cm
A espécie apresenta uma aparência robusta, com cabeça grande, alongada e oval, aparentemente encaixada diretamente no tronco; bico forte com ponta curvada; asas arredondadas; pés com garras firmes; e uma cauda de comprimento médio, terminando em forma vagamente romboidal. No conjunto, o picanço-americano é bastante semelhante ao picanço-boreal, distinguindo-se deste por seu porte menor, pela coloração em geral mais escura, pela máscara facial mais ampla — envolvendo completamente o olho com preto facial — e pelo bico mais curto e menos curvado.
A plumagem possui tonalidade cinza-rato na testa, coroa, nuca, dorso, escapular e uropígio; a garganta, a região inferior do ventre e a base da cauda são brancas; e o peito, o ventre e os flancos exibem nuances suaves de cinza-claro. As asas e a cauda são negras, sendo que as primeiras apresentam um brilho branco nas penas primárias e desde a base das coberteiras, enquanto a cauda possui uma borda branca. A máscara facial estende-se das laterais do bico até a região periauricular e a bochecha, ambas pretas, e é sobreposta anteriormente por uma sobrancelha muito fina e branca. Há dimorfismo sexual, embora discreto e difícil de identificar em campo: os machos exibem coloração um pouco mais intensa que as fêmeas.
Em ambos os sexos, pés e bico são negros, e os olhos possuem coloração castanho-escura.
Vocalização: A vocalização da espécie é ampla e diversificada, descrita como áspera e estridente. Entre os sons emitidos pelo picanço estão assobios agudos, trinados intensos e gorjeios guturais. Os machos, durante a temporada reprodutiva, produzem trinados que variam em ritmo e tom. Em situação de alarme, a ave emite um chamado "
schgra-aa", abrindo simultaneamente as penas da cauda. Além disso, um chamado de alerta característico é usado para indicar ameaças vindas de cima. Os filhotes vocalizam sons como "
tcheek" e "
tsp" logo após o nascimento. Durante o cortejo alimentar, as fêmeas podem solicitar comida com notas de súplica "
mak", enquanto os machos respondem oferecendo alimento acompanhados dos sons "
wuut" ou "
shack". O macho produz ainda um grito territorial áspero, ao passo que o canto da fêmea tende a ser mais baixo e suave. Em geral, os machos vocalizam com muito mais frequência do que as fêmeas.
Distribuição geográfica e habitat: Os picanços-americanos anteriormente apresentavam uma ampla distribuição, abrangendo o sul do Canadá, os Estados Unidos continentais e o México. Contudo, desde a década de 1960, suas populações sofreram declínio acentuado. Na costa sul da Califórnia, ocorrem quatro subespécies:
mearnsi,
gambeli,
grinnelli e
anthonyi. A subespécie
L. l. mearnsi habita exclusivamente a Ilha de San Clemente, na Califórnia, enquanto
L. l. gambeli se reproduz no continente e
L. l. anthonyi nas Ilhas do Canal. Já
L. l. excubitorides ocorre na região central da América do Norte, ao passo que a subespécie não migratória
L. l. ludovicianus reside no sudeste da América do Norte. A distribuição de
L. l. migrans estende-se do norte ao leste do continente norte-americano; porém, vem diminuindo desde a década de 1940.
A espécie necessita de habitats abertos que ofereçam áreas para forrageamento, poleiros elevados e locais adequados para nidificação. É frequentemente encontrada em campos e pastagens abertas e demonstra preferência por cedros-vermelhos e espinheiros como locais de nidificação. Os espinhos do espinheiro e as agulhas finas do cedro proporcionam proteção e camuflagem contra predadores. A ave também pode nidificar em cercas ou sebes próximas a pastagens abertas e depende de poleiros altos como pontos de observação para caçar. Os picanços-americanos favorecem ambientes de vegetação baixa, pois esses locais aumentam sua eficiência de caça. Já a vegetação mais alta tende a exigir maior gasto de tempo e energia na busca por presas, levando-os a selecionar áreas com vegetação mais curta.
Alimentação: Observou-se repetidas vezes que os picanços-americanos conseguem matar presas maiores do que eles próprios, perfurando o pescoço ou a cabeça do animal e torcendo-a. A rapidez dessa ação provoca no alvo uma lesão semelhante ao "chicote cervical". A força exercida pelo pescoço do picanço compensa a fragilidade de suas garras, tornando essa limitação praticamente irrelevante.
Embora pertençam à ordem dos passeriformes, tratam-se de predadores diurnos. Sua alimentação é composta principalmente de insetos, mas também inclui aracnídeos, répteis, anfíbios, roedores, morcegos e pequenas aves. Há registros até de consumo de serpentes venenosas, como a mocassim-d´água (
Agkistrodon piscivorus). O tamanho das presas pode variar desde 0,001 g para insetos até cerca de 25 g no caso de camundongos ou pequenos répteis.
Não são consideradas aves de rapina verdadeiras, pois não possuem garras grandes e fortes para capturar e matar presas. Em vez disso, atuam como caçadores de emboscada, perseguindo suas vítimas por meio de ataques rápidos e mergulhados a partir de poleiros elevados. Ao vigiar a área a partir de um ponto fixo, em vez de voar constantemente, o picanço economiza energia. Os poleiros ideais situam-se a aproximadamente 4 metros de altura, normalmente em galhos externos de árvores ou em fios de telefone. No inverno, quando há menor disponibilidade de alimento — devido à sua preferência por insetos e presas poiquilotérmicas —, os picanços podem sofrer estresse energético e apresentar perda de peso. Enquanto insetos podem ser consumidos em pleno voo, vertebrados exigem maior tempo e gasto energético para serem manipulados. Por ser relativamente pequeno em comparação ao tamanho de algumas de suas presas, a espécie depende de adaptações especializadas para facilitar a captura e o consumo. O bico robusto e recurvado do picanço-americano permite-lhe seccionar o pescoço de pequenos vertebrados. Já presas de maior porte são empaladas em superfícies afiadas, como espinhos ou arame farpado, processo no qual a presa é pressionada contra a projeção. Dessa forma, a ave pode arrancar a carne utilizando a estrutura como apoio. Esses espinhos também servem como local de fixação para armazenar alimento e consumi-lo posteriormente.
O comportamento de empalamento parece ser instintivo, uma vez que os pais não demonstram essa prática aos filhotes. Entretanto, é necessário que o jovem picanço vivencie a experiência de empalar uma presa em uma projeção real durante um período crítico de seu desenvolvimento; caso isso não ocorra, ele não conseguirá aplicar o comportamento instintivo em condições naturais. Além disso, já foi observado na natureza o cleptoparasitismo, no qual o picanço persegue outra ave e rouba a presa recém-capturada.
Reprodução: Os picanços-americanos são aves monogâmicas. Ainda assim, sabe-se que os machos podem iniciar uma segunda tentativa de nidificação com outra fêmea antes mesmo de a primeira ninhada ter emplumado. Eles começam a se reproduzir já na primeira primavera de vida. Durante esse período, o macho executa um ritual de cortejo que ocorre em pleno voo: ele realiza movimentos erráticos pelo ar, ascendendo e descendo rapidamente, e às vezes chega a perseguir a fêmea. Para se exibir diante da possível parceira, abre a cauda em forma de leque e bate as asas. As fêmeas podem responder à exibição com notas de súplica semelhantes às emitidas por juvenis pedindo alimento, o que incentiva o macho a oferecer comida.
A espécie nidifica em áreas semiabertas situadas no sul de Ontário, Quebec e nas províncias das pradarias canadenses, com distribuição que se estende até o México. O ninho pode ser construído tanto em locais isolados quanto em pequenos agrupamentos de árvores e arbustos densos, desde o nível do solo até alturas superiores a 4 metros. O tamanho médio da ninhada tende a aumentar conforme a latitude. Os picanços iniciam a incubação após a postura do penúltimo ovo, o que resulta em eclosão assíncrona. A incubação dura aproximadamente 16 dias. A fêmea deposita de 4 a 8 ovos em um ninho volumoso composto de galhos e grama. Após a eclosão, os filhotes recebem alimento tanto do macho quanto da fêmea. O período médio até o emplumamento é de cerca de 19 dias. Os jovens podem permanecer próximos e dependentes dos adultos por 3 a 4 semanas; depois disso, começam a buscar alimento por conta própria. Muitas vezes, porém, os filhotes não sobrevivem muito tempo após a eclosão. Quando há mortalidade na ninhada, os adultos podem consumir ou descartar os corpos dos filhotes mortos, ou até oferecê-los como alimento aos sobreviventes. O registro de maior longevidade para um picanço-americano é de 12 anos e 6 meses.
Estado de conservação: As populações de picanço-americano vêm diminuindo na América do Norte desde a década de 1960. As causas desse declínio ainda não são totalmente compreendidas, embora hipóteses incluam perda de habitat, contaminação por pesticidas e perturbações de origem humana. O picanço-americano-oriental (
L. l. migrans) encontra-se criticamente em perigo no Canadá, com menos de 35 casais reprodutores conhecidos no país. Já o picanço-americano-da-ilha-de-san-clemente (
L. l. mearnsi) também está criticamente ameaçado, tendo apresentado uma população de apenas 5 a 10 indivíduos entre 1983 e 1988. Embora somente essa subespécie insular esteja legalmente listada como ameaçada nos Estados Unidos, a espécie como um todo está em declínio em todo o continente e já não ocorre na maior parte do nordeste dos EUA; foi extirpada de todos os estados da Nova Inglaterra, bem como de New Brunswick e Nova Escócia. Em 1997, estabeleceu-se uma população em cativeiro no Zoológico de Toronto e na Universidade McGill. Posteriormente, em 2001, foi criado um programa experimental de reprodução e soltura em campo, coordenado pela Wildlife Preservation Canada. A chamada “reprodução em campo” consiste na transferência dos casais mantidos em cativeiro durante o inverno — no Zoológico de Toronto e na McGill — para grandes recintos instalados dentro do habitat natural do picanço em Ontário, onde realizam a nidificação e criam seus filhotes. Quando os jovens se dispersam naturalmente dos pais, são então liberados na natureza. Desde 2004, mais de 90 filhotes são soltos anualmente, e entre 2% e 6,5% desses juvenis soltos conseguem migrar com sucesso e retornar no ano seguinte para se reproduzir.