O Kerodon rupestris, popularmente conhecido como mocó, é um mamífero roedor pertencente à família Caviidae, e é uma espécie endêmica da caatinga brasileira, adaptada então a condições de calor intenso e escassez de água e alimento. O mocó tem sido encontrado desde o Pleistoceno, em ambientes rochosos da região semi-árida brasileira. Antigamente sua população era muito abundante, diferente de hoje, que é encontrada apenas em áreas particulares protegidas, unidades de conservação e em locais mais afastados e de difícil acesso.
Quando se busca na literatura a espécie Kerodon rupestris, é observado diversos estudos relacionados, por exemplo, a caracteres cranianos, parasitos da espécie, anatomia, morfologia, entre outros. Além disso, em pesquisas elaboradas para identificar o conhecimento da população da caatinga sobre a espécie, foi identificado que a utilizam com finalidades zooteráptica, alimentação, criação e ainda para fins artesanais. Assim, esse animal é alvo de caça, principalmente de subsistência, em que sua carne é considerada boa para consumo e parte de seu estômago é utilizado na produção de queijo, localmente chamado de “queijo coalhado”.
Etimologia: A etimologia da palavra Kerodon vem da língua grega e quer dizer ”dente com chifre”, a explicação talvez seja devido a similaridade dos dentes molares do mocó com pequenos chifres. Já a palavra rupestris tem origem do latim e significa “que vive nas rochas", característica referente ao habitat dessa espécie. Com relação ao nome Mocó, sua origem é indígena e significa ou “animal que rói", o que faz sentido já que são roedores, ou “dois”, dado que acreditava-se que esses animais sempre andariam em dupla, o que não é verdade.
Taxonomia e sistemática: São conhecidas aproximadamente 20 espécies de animais da família Caviiedae, todas nativas da América do Sul. Essa família é composta por quatro gêneros: Cavia, Galea, Microcavia e Kerodon. Em relação ao gênero Kerodon, esse é dividido em duas espécies, Kerodon acrobata (Moojen, Locks & Langguth, 1997), restrito a áreas do Cerrado, e Kerodon rupestris (Wied-Neuwied, 1820), restrito em áreas da Caatinga.
Distribuição geográfica e habitat: O Kerodon rupestris é uma espécie endêmica do Brasil, mais associada à caatinga, sendo muito encontrado na Serra da Capivara no Piauí, mas também avistado nos seguintes estados: Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia e em Minas Gerais, na Chapada Diamantina. Os mocós habitam fendas e/ou rachaduras de formações rochosas e apresentam algumas adaptações morfológicas que garantem à espécie habilidades arborícolas e a locomoção em seu habitat, como pés com coxins calosos, unhas rígidas, cauda atrofiada e pernas propulsoras.
Caracterização e comportamento da espécie: São roedores de grande porte, pesando 700g a 900g e chegando até 50 cm de comprimento, atingem a fase adulta em 200 dias e vivem entre 6 a 8 anos. O animal possui hábitos terrestres, e sua atividade é definida pela temperatura do ambiente, sendo observado que o roedor é ativo entre temperaturas de 25ºC e 45ºC, mas seu pico de atividade é de 31ºC a 34ºC. Ademais, o forrageamento ocorre tanto ao longo do dia como da noite, contudo através de estudos foi verificado que durante o nascer e pôr do sol o ritmo das atividades são maiores, e pesquisas ainda estão sendo realizadas a fim de identificar a razão pela preferência desses períodos crepusculares.
Em 2025, foi descoberto uma icnoespécie produzida por mocós, a Machichnus rodicus, durante o início do Holoceno, há cerca de 10 mil anos. Esse icnofóssil são marcas de roeduras de mocós, encontradas em um dente de um jovem Eremotherium laurillardi, uma espécie extinta de preguiça-gigante.
Biologia reprodutiva: Esses roedores não possuem dimorfismo sexual e vivem em grupos com diversas fêmeas e um macho, em que é observado a poligamia e o cuidado parental. As fêmeas possuem um período gestacional de 75 dias, gerando apenas um filhote por gestação, e poucas horas após o parto já conseguem acasalar novamente, o que garante a procriação ao longo de todo o ano e uma elevada produção de filhotes. Ademais, é observado ainda a chamada "poliginia de defesa de recursos", em que os machos formam haréns, com o intuito de defender ativamente e manter fidelidade às pilhas de rochas que habitam e onde as fêmeas buscam abrigo.
Alimentação e Dieta: Em relação a alimentação, são animais herbívoros, alimentando-se principalmente de cascas de árvores como mofumbo (Combretum leprosum), faveleira (Cnidoscolus quercifolius) e parreira brava (Piper spp.). Quando a vegetação se encontra seca e escassa o mocó passa a se alimentar de caules e celulose de algumas plantas, por isso a vegetação diminui na presença da espécie, quando essa se encontra em grandes quantidades.
Predadores Naturais: O gato vermelho ou mourisco, os gaviões, os furões, as cascavéis e as jiboias, são os principais predadores naturais do mocó, quando se tem a baixa presença desses predadores a população do mocó pode aumentar surpreendentemente, o que causaria a devastação da vegetação, uma vez que a espécie se alimenta de folhas e plantas.
Conservação da espécie: Antigamente os K. rupestris eram considerados de menor preocupação com relação ao risco de extinção, assim, sua criação em cativeiro era permitida, com o propósito de suprir a carência proteica da população de baixa renda da caatinga. Ademais, presumia-se improvável o declínio da população de mocó, dado que o tamanho populacional era considerável e ocorria em áreas protegidas, contudo, ultimamente essa espécie vem sofrendo intensa caça predatória, principalmente pelo seu tamanho e sua carne ser considerada de boa qualidade. Dessa forma, e devido ainda a destruição de afloramentos rochosos, agravado pela seca extrema dos últimos anos, verificou-se um declínio populacional de aproximadamente 30% da espécie.
O mocó pode ser encontrado em unidades de conservação como no Parque Nacional Das Sempre Vivas (PNSVIVAS), onde a espécie ocupa uma área de 262 km² e é a unidade que apresenta maior ocorrência e preservação mais bem sucedida, também é encontrado no Parque Nacional da Serra da Capivara, no PARNA Serra das Confusões e em menores ocorrências na Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins (EESGT), PARNA Chapada dos Veadeiros (PNCV), Parque Nacional Grande Sertão Veredas (PNGSV) e PARNA Serra do Cipó (PNSCIP).
Categoria de risco de extinção e critério: Embora na lista vermelha da IUCN essa espécie esteja classificada como "pouco preocupante", essa classificação está provavelmente desatualizada, dado que a versão mais recente, de 2018, do livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção, classifica a espécie K. rupestris na categoria Vulnerável (VU), de acordo com o critério A2d, visto redução populacional da espécie.