Caracterizada por uma silhueta extremamente elegante e esguia, esta ave limícola da família Recurvirostridae sobressai por apresentar as pernas de tom rosa-intenso ou vermelho-coral mais longas em proporção ao corpo de qualquer ave, com exceção do flamingo. O seu corpo mede entre 33 e 40 centímetros de comprimento, com uma envergadura de asas que varia de 75 a 85 centímetros. Apresenta uma plumagem de forte contraste cromático, exibindo as partes ventrais, pescoço e cabeça predominantemente brancos, enquanto o dorso e as asas são de cor preta-escura, com um brilho esverdeado nos machos e uma tonalidade mais acastanhada nas fêmeas. O bico é comprido, reto, extremamente fino e preto, perfeitamente adaptado para sondar o lodo. Os olhos possuem uma expressiva íris vermelha brilhante, enquanto os juvenis exibem tons mais pardos e acinzentados na plumagem e pernas de cor carne pálida.
Distribuição geográfica: Apresenta uma distribuição cosmopolita extraordinariamente ampla, ocorrendo no sul e oeste da Europa, em grande parte da África, no sul da Ásia e em áreas da Oceania. As populações que se reproduzem em latitudes mais setentrionais, como na Península Ibérica e no sul da França, são migratórias, invernando no continente africano ou ao longo da bacia do Mediterrâneo, ao passo que as populações residentes em regiões tropicais são maioritariamente sedentárias ou realizam deslocamentos nómadas induzidos pela pluviosidade.
Ambiente: Frequenta preferencialmente zonas húmidas de pouca profundidade, tanto de água doce como salobra ou salgada. É particularmente abundante em marismas, lagoas costeiras, salinas artificiais, estuarios e arrozais. Prefere áreas abertas e desprovidas de vegetação densa ou alta, o que lhe garante uma excelente visibilidade para detectar potenciais predadores, dependendo diretamente de bancos de lama expostos ou águas rasas para se deslocar e alimentar de forma eficiente.
Alimentação: A sua dieta é estritamente carnívora, composta por uma grande diversidade de invertebrados aquáticos. Alimenta-se principalmente de insetos aquáticos e respetivas larvas (como coleópteros, dípteros e odonatos), pequenos moluscos, crustáceos, poliquetas e oligoquetas. Ocasionalmente, pode capturar pequenos peixes e girinos. Utiliza variadas técnicas de procura de alimento, destacando-se a captura visual direta na superfície da água ou do lodo, bem como movimentos de varrimento lateral com o bico submerso para detetar presas por tacto em águas turvas.
Comportamento: Trata-se de uma espécie marcadamente gregária, que costuma agrupar-se em pequenas colónias frouxas durante a época reprodutiva e em bandos mais numerosos durante as épocas de migração e no inverno. É uma ave bastante ruidosa e vocal, que emite um som de alarme metálico, agudo e persistente, assemelhado a um "kip-kip-kip". Perante a aproximação de potenciais predadores ou intrusos perto do ninho, os adultos realizam exibições de distração, simulando asas partidas ou lesões físicas para afastar a ameaça para longe dos ovos ou das crias.
Nidificação: O período reprodutivo ocorre habitualmente entre abril e junho. Esta ave nidifica em colónias dispersas, muitas vezes associada a outras espécies de limícolas. O ninho consiste numa pequena depressão escavada no solo, localizada em ilhéus, diques de salinas ou superfícies de lama seca muito próximas da água, sendo revestido com pequenos gravetos, conchas e pedras. A postura é composta geralmente por 4 ovos de coloração verde-oliva ou arenosa, densamente manchados de castanho-escuro. Ambos os progenitores partilham a tarefa de incubação durante 22 a 25 dias. As crias são nidífugas, abandonando o ninho poucas horas após a eclosão e alimentando-se sozinhas sob a estreita vigilância dos progenitores até estarem prontas para voar, o que ocorre entre 28 e 32 dias após o nascimento.
Categoria de conservação: Globalmente, a espécie está classificada como Pouco Preocupante (LC) na Lista Vermelha da UICN, devido à sua vasta distribuição geográfica e à estabilidade demográfica das suas populações. Contudo, a nível local enfrenta ameaças consideráveis devido à perda e degradação das zonas húmidas, poluição das águas por efluentes agrícolas, flutuações artificiais do nível da água nas salinas comerciais e perturbação humana direta nas praias e locais de nidificação.
Compilação e publicação: EcoRegistros – 15/07/2026