O
gambá-comum (
Didelphis marsupialis) é uma espécie de marsupial encontrada em grande parte das zonas tropicais e subtropicais das Américas do Norte, Central e do Sul, incluindo o arquipélago de Barlavento, no Caribe. Pode ser denominado como
gambá-de-orelha-preta-do-norte para diferenciá-lo do gambá-de-orelha-preta-do-sul (
Didelphis aurita), também chamado de gambá-comum, porém adaptado às regiões de Mata Atlântica e restrito ao Brasil, Paraguai e Argentina. A nomenclatura faz referência à coloração das orelhas para distinguir estas espécies do outro grupo da família dos didelfiídeos, os gambás de "orelha-branca" -
D. albiventris, D. pernigra e D. imperfecta - além do
D. virginiana, que possui orelhas inteiramente pretas ou com as pontas brancas.
Etimologia: O nome científico do gênero,
Didelphis (gr., ´dois úteros), de δι- (
di-, “dois”) + δελφύς (
delphús, “útero”), refere-se à duplicação do trato reprodutivo da fêmea marsupial: ela possui dois ovários, dois ovidutos, dois úteros e duas vaginas, conduzindo a um vestíbulo comum, o sinus urogenital. Já o nome científico da espécie,
marsupialis, do latim
marsupium por empréstimo do grego antigo μάρσιππος (
mársippos, bolsa), designa a bolsa abdominal para a qual os embriões migram e onde são amamentados até completarem o seu desenvolvimento.
Hábitat: As seis espécies do gênero
Didelphis são os marsupiais mais amplamente distribuídos do continente americano. Dentre elas, o
gambá-comum é nativo em Belize, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana Francesa, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Trinidad e Tobago e Venezuela, tendo sido introduzido recentemente nas ilhas da Dominica, Santa Lúcia, Granada e Martinica, nas Pequenas Antilhas - onde se naturalizou - e na Ilha Santa Maria do arquipélago de Galápagos - onde foi considerado uma espécie invasiva e sua erradicação é planejada. Ocorre em 26 dos 32 Estados mexicanos, de Tamaulipas a Chiapas e na Península de Iucatã, ocupando da América Central até o norte da América do Sul, incluindo o norte e o centro-oeste do Brasil. Esta extensão territorial o torna residente de duas regiões biogeográficas: a neotropical e a neártica.
O
gambá-comum prefere as florestas primárias, estacionais-perenifólias e matas de galeria, e habita também regiões com precipitação variadas e áreas montanhosas da Costa Rica e do Escudo das Guianas, com elevações acima dos 1.000 metros, mas não é encontrado em altitudes superiores a 2.000 metros, em média, bem como em lugares áridos. Adapta-se aos ambientes alterados pelo homem, em regiões rurais e urbanas, próximo das residências e locais de descarte de resíduos, bem como plantações de cacau, café e frutas cítricas. Vive tanto no solo quanto nas árvores, embora seja mais terrestre do que outros membros de seu gênero.
É um animal generalista e talvez o mais adaptável e tolerante mamífero neotropical.
Descrição física: O
gambá-comum é um marsupial robusto, com pelagem corporal grossa e longa, dando-lhe a característica aparência desgrenhada. A pelagem dorsal é frequentemente escura, em tonalidades que vão do preto ao cinzento, e, raramente, ao esbranquiçado. A pelagem ventral é amarelada ou creme. Já a pelagem facial é esbranquiçada, com uma faixa escura no topo da cabeça e anéis escuros ao redor dos olhos. Suas orelhas são grandes e pretas. Possui garras afiadas, bigodes compridos e uma cauda prêensil sem pêlos ligeiramente mais longa que seu corpo. Apresenta dimorfismo sexual, com exemplares machos capturados na Guiana Francesa pesando em média 1.2 kg, e as fêmeas 1.03 kg, podendo pesar até um máximo de 4 a 6 kg. Seu tamanho médio é de 37.1 cm (variando de 26.5 a 43 cm), mais a cauda de 39.5 cm. Seu tamanho é semelhante ao do gato doméstico.
A anatomia de suas patas é similar a dos guaxinins e dos mãos-peladas, permitindo a locomoção plantígrada e grande destreza nas patas, com cinco dedos, e polegares opositores nas traseiras. Possuem algumas habilidades que se aproximam das mãos humanas, como abrir portas e recipientes, segurar objetos e manipular seu alimento, conduzindo-o à boca ao aproximar suas "mãozinhas" do focinho, uma característica marcante que foi reproduzida na arte dos povos originários da América.
O gambá-comum é portador de inúmeros parasitas; até 46 espécies diferentes entre parasitas internos e externos, segundo algumas fontes. O
Trypanosoma cruzi pode estar presente em suas glândulas anais. Além de cestódeos, nematódeos e acanthocephala nos intestinos. É também conhecido por ser portador de doenças graves como o mal de Chagas, leishmaniose, leptospirose e raiva. Embora o vírus da raiva seja raramente detectado e de ser improvável que o transmita, o fato de predar morcegos o torna potencialmente suscetível à infecção.
Pode viver de 2 a 5 anos na natureza; no entanto, sua vida média é de menos de dois anos, com a maior taxa de mortalidade antes de alcançar a maturidade e ainda em fase de lactação.
Hábitos alimentares: O gambá-comum é um onívoro oportunista, digerindo praticamente qualquer item comestível. Após o desmame, sua dieta permanecerá substancialmente constante, apesar de animais mais velhos consumirem vertebrados com maior frequência. Alimenta-se principalmente no solo, de invertebrados (minhocas, besouros, gafanhotos), pequenos vertebrados (sapos e cobras, mamíferos e aves) além de vegetais, frutas, néctar e mesmo carniça. É muito resistente ao veneno das víboras e capaz de consumir cascavéis.
Também procura alimento em composteiras e lixeiras no meio urbano e é um grande dispersor de sementes das frutas das quais se alimenta, incluindo as embaúbas; além de transportar sementes em sua pelagem, como no caso da
Pavonia schiedeana e da
Desmodium incanum , plantas de origem antropogênica introduzidas no estrato herbáceo da mata nativa por esta ação.
Comportamento: O
gambá-comum é sobretudo terrestre e notívago, com alguns hábitos arborícolas, e, exceto pelo período reprodutivo, é um animal solitário. Durante o dia, permanece escondido em tocas subterrâneas, em cavidades ou na copa das árvores, em palmeiras, figueiras, ninhos abandonados por outras espécies ou qualquer outro local escuro. O macho troca de toca em média a cada 1 dia e meio, e a fêmea, a cada 5 dias. Torna-se ativo cerca de uma hora antes do pôr-do-Sol, com picos de atividade entre as 23h da noite e as 3h da madrugada. Dada sua abundância e distribuição geográfica continental, é predado por uma grande variedade de animais, por exemplo, ocelotes, jaguarundis e harpias, além de cães domésticos. Acuado, pode vocalizar silvos, rosnados ou guinchos, além de mostrar os dentes, babar e oscilar de um lado a outro. Suas táticas de evasão incluem correr, subir em árvores e, com menor frequência, fingir-se de morto através da auto-indução de um estado catatônico que pode durar de 1 minuto a 6 horas. Observado no gambá-da-Virgínia, este comportamento deu origem à expressão "brincando como um gambá" (
"playing possum", em inglês).
Interação com seres humanos: O gambá-comum é um animal pouco agressivo e eficaz no controle de animais peçonhentos e na dispersão de sementes - e possivelmente na polinização de algumas espécies de plantas. Apesar disto, é considerado uma praga urbana por suas incursões em espaços humanos e por predar aves domésticas e morcegos capturados em redes de neblina por pesquisadores. Em Trinidad e Tobago é classificado como um animal daninho e pode ser morto sempre que encontrado em propriedades privadas. Seus hábitos noturnos e furtivos o tornam sujeito a atropelamentos e outros acidentes em áreas urbanas. Sua má reputação o torna suscetível aos maus-tratos e ao extermínio, assim como à caça devido à sua carne, ainda bastante consumida, e às propriedades medicinais atribuídas à sua cauda e gordura.
Esta proximidade não só do
gambá-comum como das outras espécies de gambás com os seres humanos pode gerar o problema inverso: o ímpeto por resgatar e até mesmo adotá-los como animais exóticos. Esta é uma tendência recente que tem como precedentes: a domesticação de pequenos mamíferos - como porquinhos-da-índia, furões, chinchilas, gerbilos, hamsters, twisters, porcos-espinhos e até capivaras, dentre outros - e a popularização da
pet parent centricity, ou "centralidade" do "pai ou mãe de pet", como são conhecidos aqueles que criam uma relação de dependência afetiva com seus mascotes, tratando-os como se fossem filhos, causando impactos inadvertidos sobre seu bem-estar. Os gambás, contudo, pertencem à fauna nativa, e de acordo com o artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais, qualquer interação com estes animais sem autorização da autoridade competente ou em desacordo com ela é um crime ambiental. Caso seja necessário resgatar o animal, o ideal é entregá-lo em um dos do IBAMA.
Aspectos culturais: As muitas peculiaridades do
gambá-comum o destacaram nas mitologias e representações artísticas dos povos originários desde a Antiguidade. Sua aparência, anatomia e sua habilidade em burlar obstáculos, ser furtivo e praticar a tanatose, tornaram o
, como é conhecido no México, o animal mais representado na cerâmica mesoamericana durante o Período Pré-Clássico (2300 a.C.-100 d.C.), sobretudo para a cultura Tlatilco, a mais influente do México Central entre 1200 e 900 a.C.
Fontes históricas e evidências arqueológicas também corroboram a importância do
gambá-comum na iconografia de artefatos cerâmicos ao sul das Pequenas Antilhas, entre 400 d.C e 1.400 d.C, sobretudo para a cultura Saladoide.
O imaginário envolvendo este animal continua os cronistas e artistas europeus dos séculos XVI e XVII. Na retórica fantástica das narrativas pós-Conquista, o
gambá-comum foi ilustrado como o primeiro marsupial americano visto pelos europeus por Pietro Martire d´Anghiera, no livro
De Orbe Novo: uma fêmea com filhotes capturada durante a expedição de Vicente Yáñez Pinzón, em fevereiro de 1500, na costa do Brasil. O exemplar é descrito como uma criatura monstruosa com
a face de uma raposa, a cauda de um macaco, as orelhas de um morcego, as mãos de um humano, os pés de um macaco, de modo que para onde que ela queira ir carrega seus filhotes numa barriga externa em forma de uma bolsa larga.