Trata-se de um díptero neotropical de grande relevância veterinária e médica, amplamente conhecido por sua biologia parasitária única e ciclo de vida complexo. Os adultos de Dermatobia hominis medem entre 12 e 18 milímetros de comprimento, apresentando uma aparência robusta que lembra uma grande mosca varejeira ou uma mamangaba. O tórax exibe uma coloração cinza-azulada opaca, enquanto o abdômen é proeminente, com um tom azul-metálico brilhante ou violáceo. A cabeça é proporcionalmente grande, de cor amarelo-alaranjada, destacando-se pelos grandes olhos avermelhados. Um detalhe anatômico fundamental é que os adultos possuem peças bucais vestigiais, impossibilitando-os de se alimentar. Em contrapartida, as larvas são parasitas obrigatórias com formato piriforme, caracterizadas por possuírem fileiras concêntricas de espinhos quitinosos voltados para trás, os quais servem para ancorar firmemente o organismo sob a derme do hospedeiro.
Distribuição geográfica: Esta espécie apresenta uma ampla distribuição na região Neotropical. Seu mapa de ocorrência estende-se desde o sul do México, passando por toda a América Central, até alcançar a porção setentrional da Argentina. No Brasil, encontra-se amplamente disseminada por quase todo o território nacional, com especial incidência em regiões tropicais e subtropicais úmidas. É ausente em áreas de clima temperado rigoroso ou em altitudes elevadas devido à intolerância ao frio extremo de suas fases de pupa e larva.
Ambiente: Ocorre principalmente em áreas florestais úmidas e quentes. Os seus habitats preferenciais incluem a Mata Atlântica, a Floresta Amazônica, matas de galeria, florestas secundárias e capoeiras. No entanto, exibe grande plasticidade ecológica, adaptando-se com facilidade a pastagens arborizadas e ecossistemas agrícolas alterados pelo homem, onde a alta densidade de bovinos e equinos favorece a manutenção do seu ciclo reprodutivo. Ocorre predominantemente em altitudes inferiores a 1500 metros.
Alimentação: O padrão de nutrição deste táxon é estritamente dividido por fases biológicas. Na fase adulta, não há ingestão de alimentos, uma vez que o aparelho bucal não é funcional; assim, toda a energia é proveniente do tecido adiposo acumulado na fase de larva. Já as larvas são parasitas obrigatórias altamente especializadas na histofagia. Localizadas na camada subcutânea do hospedeiro, elas se alimentam de fluidos teciduais, exsudato inflamatório e detritos celulares resultantes da necrose localizada, sem necessariamente causar danos sistêmicos letais ao hospedeiro em infestações moderadas.
Comportamento: Exibe uma estratégia ecológica incrivelmente adaptada e complexa conhecida como forésia. Sendo moscas de voo pesado e lento, as fêmeas adultas não pousam diretamente sobre os hospedeiros vertebrados para realizar a postura. Em vez disso, capturam em pleno voo outros insetos dípteros menores e hematófagos, como mosquitos (notavelmente do gênero Psorophora) ou moscas dos estábulos, e fixam seus ovos na região abdominal do vetor por meio de uma substância cimentosa de rápida secagem. O vetor atua, portanto, como um transportador mecânico involuntário.
Reprodução: O ciclo reprodutivo tem início logo após a emergência dos adultos da pupa, impulsionado pela curtíssima longevidade desta fase. Após a cópula, a fêmea fertilizada realiza a postura de 15 a 30 ovos no abdômen de um inseto vetor. Quando este vetor pousa em um mamífero de sangue quente para sugar sangue, o calor corporal do hospedeiro estimula a eclosão imediata das larvas de primeiro instar. Estas penetram ativamente na pele do hospedeiro através do orifício da picada ou de folículos pilosos. O desenvolvimento larval subcutâneo ocorre ao longo de 5 a 12 semanas, criando um nódulo cutâneo (popularmente chamado de "berne") com um pequeno orifício respiratório. Ao atingir o terceiro instar, a larva madura abandona o hospedeiro, geralmente à noite, e cai no solo úmido onde se enterra para realizar a pupação, processo que dura de 4 a 6 semanas até a emergência do novo adulto.
Categoria de conservação: Por se tratar de um inseto parasita que afeta severamente a pecuária e a saúde pública (causador da miíase furuncular), a espécie não foi avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Suas populações não correm risco de extinção e são abundantes em toda a sua área de ocorrência, sendo combatidas ativamente por meio de tratamentos antiparasitários sistêmicos e controle químico de vetores.
Compilação e publicação: EcoRegistros – 23/09/2026