Representa o maior piciforme da América do Sul, destacando-se por seu porte imponente e adaptações morfológicas especializadas para a vida florestal. Esta espécie atinge entre 36 e 45 centímetros de comprimento total e possui uma massa corporal que varia de 300 a 363 gramas. Apresenta um acentuado dimorfismo sexual baseado na coloração cefálica. O macho exibe uma crista, nuca e cabeça inteiramente vermelhas-escuras, enquanto o restante do seu corpo é revestido por uma plumagem preta-azulada brilhante com marcas brancas nas penas secundárias internas. A hembra possui plumagem quase totalmente preta, apresentando apenas uma discreta mancha vermelha na base do bico e uma longa crista preta que se curva graciosamente para a frente. Ambos os sexos têm olhos com íris amarelo-clara, pés zigodáctilos com garras fortes para escalada vertical e retrizes rígidas na cauda para sustentação nos troncos.
Distribuição geográfica: É uma espécie endêmica da porção austral da América do Sul, habitando as encostas da cordilheira dos Andes e áreas florestais vizinhas. Ocorre de maneira contínua desde as regiões de Maule e O´Higgins no Chile, e a província de Neuquén na Argentina, estendendo-se em direção ao sul até o arquipélago da Terra do Fogo.
Ambiente: Está intimamente associado às florestas temperadas úmidas de tipo subantártico e patagônico. Prefere habitats florestais primários ou maduros que contêm árvores antigas de grandes dimensões e uma abundância significativa de madeira morta em pé. Os ecossistemas preferidos são dominados por espécies do gênero Nothofagus, conhecidas como faias-do-sul, incluindo o coihue (Nothofagus dombeyi), a lenga (Nothofagus pumilio) e o ñire (Nothofagus antarctica), além de florestas de cipreste-da-cordilheira (Austrocedrus chilensis).
Alimentação: Sua dieta é altamente especializada, sendo composta principalmente por larvas de grandes coleópteros broqueadores de madeira, especialmente das famílias Cerambycidae e Buprestidae. O método de forrageamento consiste em remover a casca das árvores e perfurar troncos em decomposição usando o bico forte, extraindo as presas com sua língua longa e viscosa. Complementa sua alimentação consumindo aranhas, seiva, bagas silvestres e, ocasionalmente, pequenos lagartos ou ovos de outras aves.
Comportamento: É uma ave territorial e monogâmica que vive em grupos familiares estáveis compostos por dois a cinco indivíduos. A comunicação do grupo é mantida por meio de gritos nasais característicos e pelo emblemático duplo golpe ou tamborilar, um sinal acústico percussivo de longa distância usado para marcação de território. Seu voo é nitidamente ondulado e pesado, e o deslocamento nas árvores ocorre em movimentos espirais ascendentes ao longo dos troncos principais.
Nidificação: A temporada de reprodução ocorre entre os meses de outubro e janeiro. O casal trabalha ativamente na escavação de uma cavidade profunda no tronco de uma árvore de grande porte, viva ou morta, a uma altura de 5 a 15 metros do solo. A fêmea realiza a postura de um a dois ovos brancos, que são incubados por ambos os pais durante um período de 15 a 17 dias. Os filhotes permanecem no ninho por cerca de 45 dias e dependem do grupo familiar para alimentação e proteção por um período prolongado, que pode chegar a dois anos.
Categoria de conservação: Globalmente, a espécie está listada como Pouco Preocupante (LC) pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Contudo, em nível regional, enfrenta ameaças significativas, sendo classificada como Vulnerável devido à perda e fragmentação severa de florestas nativas maduras, incêndios florestais e à competição por cavidades de nidificação com espécies exóticas invasoras, como o vison-americano (Neovison vison).
Compilação e publicação: EcoRegistros – 09/08/2026